Com crise, bancos retomam R$ 11,5 bi em imóveis de inadimplentes desde início de 2014

Com crise, bancos retomam R$ 11,5 bi em imóveis de inadimplentes desde início de 2014

Brasília, 24/08/2018 – Disparou o número de famílias despejadas por inadimplência no financiamento imobiliário. Desde o início de 2014, os cinco maiores bancos do Brasil retomaram R$ 11,5 bilhões em imóveis de clientes com pagamento em atraso. O valor corresponde a cerca de 70 mil casas e apartamentos. A inadimplência e a consequente retomada do imóvel cresceram à medida que a crise elevou o desemprego e reduziu a capacidade financeira de clientes. Atualmente, as cinco maiores instituições financeiras têm recorde de R$ 13,7 bilhões em imóveis à espera de um interessado, cifra que cresceu 745% em quatro anos e meio.

O volume de imóveis retomados tem crescido a passos largos há vários anos. Dados dos balanços do Banco do Brasil, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Itaú Unibanco e Santander revelam que o setor teve aumento médio de quase R$ 2 bilhões em unidades retomadas a cada ano entre 2014 e 2017. O ritmo continua forte neste ano e, em apenas seis meses, bancos tomaram mais R$ 1,48 bilhão em imóveis de inadimplentes.

A líder no financiamento imobiliário, a Caixa, encabeça esse esforço de reaver os imóveis, com cerca de 70% das unidades. Desde o início de 2014, o banco federal tomou de volta o equivalente a R$ 8,1 bilhões em casas e apartamentos. O balanço de junho indicava que o banco mantinha 47 mil imóveis de ex-clientes que, somados, valiam R$ 9,1 bilhões. Em 2016, o estoque era menos da metade: 23 mil unidades.

O mesmo fenômeno acontece nos concorrentes, ainda que com ritmo um pouco menos intenso. Desde o início de 2014, Bradesco, Santander e Itaú Unibanco somaram, cada, cerca de R$ 1 bilhão a essa carteira. O BB teve aumento menos intenso, com R$ 116 milhões no período.

Em milhares de reais

*Inclui veículos

Fonte: Balanço de Bancos

São números que chamam atenção. Se continuarmos observando esse movimento por um ou dois anos, poderemos ter um problema razoável“, diz o professor de finanças da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, Rafael Schiozer. O professor nota que o principal risco dos bancos é a queda do preço dos imóveis, o que reduz a possibilidade de a instituição reaver o dinheiro.

O presidente da Associação dos Mutuários de São Paulo, Marco Aurélio Luz, explica que bancos normalmente retomam o imóvel em processos que duram de seis meses a um ano, mas há casos mais rápidos. “Há situações de imóveis financiados pelo Sistema Financeiro Imobiliário (SFI) que foram a leilão em 90 dias“, diz. Os prazos dos mutuários do Sistema Financeiro da Habitação (SFH) costumam ser alguns meses mais longos.

O esforço dos bancos em desalojar clientes rapidamente gera um curioso efeito positivo nos indicadores de inadimplência. Isso acontece porque, com a transferência do imóvel para a instituição financeira, a operação deixa de ser considerada “crédito inadimplente” e passa a ser um “ativo” do banco. A retomada desses imóveis, portanto, acaba funcionando como uma válvula de escape para o calote. Segundo o Banco Central, o porcentual dos financiamentos imobiliários para pessoas físicas com inadimplência superior a 90 dias tem oscilado em torno de 2% desde o início da década.

Ou seja, atrasos no pagamento são cada vez mais frequentes, mas o banco corre para liquidar a operação antes que isso seja visível na inadimplência.

Especialista no setor bancário, Rafael Schiozer nota que o esforço dos bancos em liquidar o financiamento pode ser explicado pelos potenciais problemas gerados por essa situação. Primeiro, a instituição tem o prejuízo com a falta de pagamento do mutuário. Depois, tem gastos operacionais para manutenção dessas unidades que passam a estar sob sua responsabilidade. “Além disso, esse ativo tem um custo financeiro porque não rentabiliza nada, já que o imóvel fica parado no balanço“, explica o professor. “Quanto mais ativo não líquido o banco tiver, mais dificuldade terá para cumprir indicadores de liquidez e menor capacidade de oferecer novos créditos“.

Procurados, os cinco grandes bancos não quiseram se pronunciar sobre o tema. (Fernando Nakagawa – fernando.nakagawa@estadao.com)

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