Com emissora de TV, dono da construtora MRV quer influenciar mais a agenda nacional

Com emissora de TV, dono da construtora MRV quer influenciar mais a agenda nacional

São Paulo, 01/02/2019“Tem que mudar a cultura do brasileiro. O brasileiro é muito pra dentro, muito introspectivo. Parece que tem vergonha de participar. ‘Ah, o problema é do governo’. Mas não é não?”, defende o empresário mineiro Rubens Menin, antes de fazer uma pausa para terminar de engolir o pão de queijo durante entrevista ao Broadcast. “A gente tem que botar a cabeça para fora e participar mais”, completa. A fala de Menin é a resposta quando perguntado sobre sua motivação em investir no novo negócio, a emissora CNN Brasil. Além de empreender e ganhar dinheiro, ele está ampliando seu plano de ditar os rumos da agenda nacional.

Menin, de 62 anos, já é um dos homens mais ricos do País, com fortuna superior a R$ 3,5 bilhões, formada a partir do conjunto de empresas que fundou ou que figura como principal acionista. A maior delas é a MRV Engenharia, maior operadora do Minha Casa Minha Vida (MCMV) e maior construtora residencial da América Latina. Mas, além dela, há outras seis: Inter (banco), Log Commercial Properties (galpões logísticos), Urbamais, (loteamentos), ABC da Construção (materiais), AHS (construção residencial nos EUA) e Conedi Participações (comercialização e administração de imóveis).

 

Não bastasse a fortuna, Menin acompanha de perto articulações no Congresso feitas por meio da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), que ajudou a fundar, da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) e do movimento Renova BR, que forma jovens lideranças políticas. Ele também foi o sexto maior doador das eleições de 2018. E, de quebra, ainda é um dos empresários com mais seguidores no Twitter.

 

Agora, vai ajudar a construir uma das maiores redações do País, com cerca de 400 jornalistas, acompanhado pelo sócio Douglas Tavolaro, ex-vice-presidente de jornalismo da Record. A CNN Brasil será uma emissora de TV com sede em São Paulo e sucursais no Rio de Janeiro e em Brasília, programação 24 horas para assinantes, além de conteúdo livre via site e aplicativo. O objetivo é expandir o alcance da programação para o maior público possível, não falando apenas com a elite. A grade será semelhante à da CNN norte-americana, mas com conteúdo “tropicalizado”, nas palavras do empresário.

 

“Começaram a rotular como de direita ou de esquerda. Não é nada disso. Queremos fazer uma boa imprensa”, conta. Questionado se os jornalistas terão liberdade para investigar o governo, ele afirma que sim. “Vou fazer um esforço para ser chapa branca?! Tem nada a ver”, fala, levantando a voz para enfatizar, mas sem rispidez.

 

Diferente de suas outras empresas, que guardam sinergias por atuarem no universo da construção, o veículo de imprensa é uma jornada totalmente nova. O problema é se transformar em um ralo de recursos. A emissora mira o intangível, que é dar uma cara nova ao Brasil, mas tem retorno incerto?, comenta um colega do setor da incorporação. Mas Menin garante que, como qualquer negócio, a CNN Brasil terá de dar dinheiro. Nada é sustentável no longo prazo se precisar ficar socorrendo financeiramente. Eu não entraria em um projeto assim?, garante.

 

Menin termina o segundo pão de queijo e toma suco de caixinha. Eram 14h40 e ele ainda não havia almoçado. A entrevista foi concedida na sede do banco Inter, localizado na Av. Juscelino Kubitschek, um dos principais polos corporativos de São Paulo. O Inter, junto da Log, foram as duas empresas que ele levou para a bolsa no ano passado, com aberturas de capital que levantaram R$ 1 bilhão junto a investidores, a despeito do ano marcado pelos solavancos na economia e na política. Nos próximos anos, ainda sem data, também quer fazer o mesmo com a Urbamais.

 

Já suas duas construtoras – a mineira MRV e a norte-americana AHS – compartilham pesquisas tecnológicas e inovação na construção civil. A MRV está montando uma base na Flórida para entender melhor o mercado. Enquanto isso, o conselho de administração já discute efetivamente o início das operações por lá no médio prazo, dentro do setor imobiliário popular.

 

Articulado -Na cena política, Menin foi o sexto maior doador das eleições de 2018, com desembolsos que somaram R$ 2,6 milhões, distribuídos entre 20 candidatos e diretórios partidários. O líder do ranking foi seu xará, Rubens Ometto, da Cosan, que repassou R$ 7,5 milhões para 65 destinatários. Já as doações da família chegaram a R$ 3,5 milhões, incluindo na conta os desembolsos dos filhos Rafael e Maria Fernanda Menin e do sobrinho Eduardo Fischer, todos executivos no comando da MRV.

 

O principal destino das doações do empresário foi o diretório do DEM no Rio de Janeiro, que recebeu R$ 500 mil. “Eu estou muito preocupado com os problemas do Rio. Esse é um problema do Brasil”, diz. Vale lembrar que o diretório também é o berço político do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. No último ano, Maia foi peça-chave para o setor da construção civil, ao colocar na pauta de votação o projeto de lei que regulamentou os distratos, aprovado na Câmara em dezembro.

 

Na sequência, os principais beneficiários das doações de Menin foram Bruno Araújo (PSDB-PE) e Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), que receberam R$ 250 mil, cada. Ambos são ex-ministros das Cidades, pasta que coordena o programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) e agora foi anexada ao Ministério do Desenvolvimento Regional no governo de Jair Bolsonaro. Ao todo, candidatos de dez partidos receberam doações de Menin, mas, curiosamente, o PSL de Bolsonaro ficou de fora. “Eu não conhecia ninguém do partido do Bolsonaro. Se eu conhecesse e gostasse, teria feito. Não tenho veto, nem a favor, nem contra”.

 

Além do ranking de doações eleitorais, Menin também figura em outro top dez. Ele é um dos empresários brasileiros mais populares no Twitter, com mais de 300 mil seguidores, colado em nomes de grande visibilidade, como Abílio Diniz e João Amoêdo, sendo que este último acabou de vir de uma campanha para a presidência. Ele também está à frente de outros nomes muito falantes, como Luiza Trajano, do Magazine Luiza, e Luciano Hang, da Havan, que ficou conhecido pela verborragia contra a esquerda.

 

No Twitter, Menin divulga números positivos de suas empresas, ações sociais, compartilha notícias e, não raramente, dá sua opinião. O jornalista Ricardo Amorim é uma das fontes de informação preferidas. Nos posts que compartilham, um tema comum são as críticas ao tamanho do Estado e o excesso de gastos para se manter a máquina pública. ?Minha regra nas postagens é não falar mal de pessoas nem de empresas e não ter um lado partidário?, conta. Apesar do número elevado de seguidores, Menin quase nunca entra numa conversa. ?Eu não tenho assessoria para as postagens. Eu faço isso sozinho, às vezes dito para a minha secretária publicar. Se eu for responder cada um, vou gastar um tempo enorme?. (Circe Bonatelli – circe.bonatelli@estadao.com)

Fique por dentro do Mercado Imobiliário! Receba conteúdos gratuitamente.

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.

Fale o que você pensa

O seu endereço de e-mail não será publicado.