Com entrada nos EUA, MRV pretende virar plataforma mundial de construção

Com entrada nos EUA, MRV pretende virar plataforma mundial de construção

São Paulo, 05/09/2019 – Com a compra da construtora AHS Residential, sediada nos Estados Unidos, a MRV Engenharia pretende dar os primeiros passos de uma caminhada que pode chegar também a mais países no futuro. “Pretendemos ser uma plataforma mundial de construção”, afirmou o controlador do grupo, Rubens Menin, em entrevista ao Broadcast. Ele disse que o foco agora é a expansão e a consolidação no mercado imobiliário norte-americano, mas tem a intenção de avaliar a entrada em outros países mais adiante. “Algum dia vai acontecer”, projetou.

A MRV vai investir US$ 236 milhões para a compra da participação de 51% na AHS, empresa fundada e controlada por Menin. A medida causou desconfiança de acionistas, que viram um possível conflito de interesses no negócio. A ação fechou em queda de mais de 6% no pregão de ontem.

Hoje, Menin procurou esclarecer durante reunião presencial com analistas e investidores que a operação foi endossada por um comitê independente com quatro membros e pelo conselho de administração. Falta agora a aprovação dos acionistas na assembleia que está marcada para 4 de outubro. Questionado se vai votar na assembleia, ele preferiu não comentar. Menin detém 32,6% da MRV, portanto, é decisivo em qualquer deliberação. O executivo também ressaltou que todos os recursos investidos na AHS vão para projetos. “Não estou botando nenhum dinheiro no bolso. Tudo está entrando na empresa”, frisou.

Se aprovado pelos acionistas, o aporte de US$ 236 milhões será feito em duas etapas. A primeira, de US$ 46,4 milhões, ocorrerá em outubro, quando a MRV receberá 20% da AHS. A segunda etapa envolverá aportes de US$ 175 milhões a US$ 204 milhões, entre 2021 e 2022, dependendo do sucesso do plano de crescimento estabelecido agora. No fim, a MRV ficará com 51% da AHS. Os atuais acionistas da AHS – Rubens Menin (95%) e o fundo Silverpeak Real Estate (5%) – não venderão ações nesse processo e, portanto, serão diluídos para 46,3% e 2,7%, respectivamente.

“Se esperava que o dinheiro cairia somente no bolso do Rubens Menin. No entanto, a empresa mostrou que a sua participação será diluída e que ele não receberá nada por isso, o que fortalece a operação”, apontou um analista de mercado.

Os resultados da AHS aparecerão no balanço da MRV já no quarto trimestre deste ano, na linha de equivalência patrimonial. A fonte para o investimento de US$ 236 milhões serão os recursos próprios da MRV, que contava com R$ 2,5 bilhões em caixa no fim de junho. O grupo brasileiro também espera usar crédito fiscal para reduzir o pagamento de imposto sobre nacionalização do lucro da AHS, o que permitirá abater até R$ 580 milhões em impostos em 10 anos.

A grande aposta – Ao investir na AHS desde a fundação, em 2012, Menin acredita que pode ser competitivo em um segmento onde ele diz haver pouca concorrência, que é o da construção de moradias para pessoas de classe média baixa nos Estados Unidos. Esse mercado tem uma demanda grande, mas é atendida apenas com empreendedores regionais, sem escala, segundo ele. Por sua vez, a MRV está em 160 cidades do Brasil, onde consolidou o uso de formas de alumínio para erguer paredes de concreto, substituindo a obra tijolo a tijolo. Assim estabeleceu apartamentos padronizados e reduziu o tempo de construção.

Ao contrário da MRV, a AHS aluga os apartamentos e não vende. A companhia norte-americana também atua em todo o ciclo, que passa por compra de terrenos, desenvolvimento de projetos, construção, locação, administração dos prédios e venda para fundos de investimento. Já a grande maioria dos operadores locais está habituado a fazer apenas um etapa desse ciclo, explicou o presidente executivo da AHS, Ernesto Lopes.

“Uma das maiores empresas me chamou para um almoço só para perguntar como nós fazemos isso. Porque eles não conseguem”, contou Lopes. Na sua visão, a curva de aprendizado para dominar essa cadeia e lidar com os riscos dos vários processos são a maior barreira de entrada para potenciais concorrentes.

O plano para a AHS é ampliar a portfólio de apartamentos sob gestão de 700 unidades em 2019 para 5 mil em 2023, quando se concretiza o ciclo de investimentos anunciado, podendo chegar a 23,8 mil em 2028, com novos recursos. Além dos arredores de Miami, a previsão é de ir para Atlanta, Dallas, Houston e Denver.

Apesar do otimismo dos empresários, analistas ainda entendem que a empreitada tem uma boa dose de risco. “Se o mercado lá é tão lucrativo, porque ninguém fez isso até agora?”, questionou um profissional do setor. “Nos EUA, o acesso ao capital é fácil, então tem a chance de concorrentes entrarem com força se o negócio for bom de fato”, apontou. Outro analista teme que a MRV possa ficar sobrecarregada com o novo trabalho e perder o foco das operações nacionais. “O mercado aqui está cheio. Se de alguma forma perderem o foco vão ser ultrapassados”, ponderou.

Por sua vez, Menin frisou hoje que a operação nos EUA não é uma troca, uma vez que o grupo seguirá atuando fortemente no Brasil. “Seguiremos ‘pilhados’ no mercado brasileiro”, enfatizou, durante a apresentação.

Inspiração – O modelo de negócios da AHS serviu de inspiração para a MRV lançar neste ano a Luggo, voltada para locação e gestão de imóveis no Brasil. A subsidiária tem um prédio de 116 unidades já alugadas em Belo Horizonte e outras 2.000 unidades que serão construídas até 2021 em São Paulo, Curitiba, Salvador, Brasília e Porto Alegre.

A AHS construirá condomínios com 200 apartamentos em média, quatro tipos de planta, cada uma com cerca de 70 metros quadrados e dois quartos, além de proximidade a transportes públicos. O valor do aluguel ficará em torno de US$ 1.400 por mês. Os contratos têm duração de um ano, sem indexação para reajustes. Ao fim do período, os contratos podem ser renovados ou não. A ocupação hoje é de 97% dos imóveis e a inadimplência está abaixo de 1%. A receita bruta da companhia com locações está em US$ 20 milhões e a previsão é de fechar o ano com lucro líquido de US$ 6 milhões, ajudada pela venda de um prédio para fundo de investimento. (Circe Bonatell, com colaboração de Niviane Magalhães)

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