Fundos imobiliários batem o Ibovespa desde as eleições

Com juros mais altos, Caixa perde espaço para bancos privados no crédito imobiliário para classe média

Brasília e São Paulo, 08/01/2019 – A Caixa Econômica Federal já pratica taxas de juros no crédito imobiliário superiores às dos concorrentes privados, o que fez com que o banco da habitação perdesse espaço nas operações com recursos da poupança, mais utilizadas pela classe média, no ano passado. No acumulado de 2018 até novembro, a participação da instituição pública caiu de 40,43% para 22,31%, conforme dados obtidos pelo Estadão/Broadcast, como resultado de uma política mais rígida para emprestar adotada pelo banco no intuito de reforçar seus indicadores de capital.
A redução da fatia da Caixa fica ainda mais evidente considerando que o financiamento imobiliário com dinheiro da caderneta, o chamado SBPE, cresceu no ano passado. Até novembro, foram concedidos R$ 51,33 bilhões em novos financiamentos, ante R$ 39,466 bilhões de igual período do ano passado. Enquanto o banco da habitação perdeu espaço, os concorrentes cresceram. Na mesma base de comparação, o banco que mais ganhou mercado foi o Bradesco, cuja fatia passou de 18,21% em 2017 para 26,30% no ano passado, considerando dados até novembro. Todos os demais privados cresceram no mercado.

Participação dos bancos no SBPE

Instituições

Em 2018 até novembro

Em 2017 até novembro

Bradesco

26,30%

18,21%

Caixa Econômica Federal

22,31%

40,43%

Itaú Unibanco

21,39%

18,51%

Santander

18,12%

13,81%

Banco do Brasil

8,91%

5,89%

Restante do mercado

2,97%

3,17%

Fontes de mercado

Ao tomar posse, o novo presidente da Caixa, Pedro Guimarães, disse que o foco “número 1” da instituição será atender a população de baixa renda e que a classe média terá de pagar mais para tomar recursos para a compra da casa própria no banco. “Não será juro do Minha Casa, Minha Vida (MCMV), que é para quem é pobre. A classe média tem de pagar mais ou vai buscar no Santander, Bradesco, Itaú. Na Caixa, vai pagar juro maior que Minha Casa, Minha Vida, certamente, e vai ser um juro de mercado. A Caixa vai respeitar acima de tudo mercado, lei da oferta e da demanda“, disse ele, ontem, durante conversa com a imprensa.

Hoje, na cerimônia de transmissão de cargo do novo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Joaquim Levy, no Rio, Guimarães explicou que a Caixa não vai aumentar juros do crédito imobiliário para a classe média. “É óbvio que o juro para a classe média, que não é o MCMV, por definição matemática, é maior“, destacou o presidente do banco público.

A Caixa já diferencia juros dos financiamentos imobiliários voltados às famílias mais pobres das operações voltadas aos clientes de classe média. Dados do Banco Central mostram que, além de praticar taxas bem diferentes para esses dois segmentos, o juro praticado pelo banco estatal nas linhas que concorrem com os privados – segmento conhecido como “taxas de mercado” – é o maior entre todas as instituições financeiras.

O dado mais recente do BC mostra que, em novembro de 2018, a Caixa cobrou juro médio de 11,54% ao ano nos financiamentos imobiliários com juros de mercado. Esse é o crédito mais caro entre os nove bancos que emprestaram recursos nessa operação naquele mês. O Banco do Brasil, por exemplo, cobrou taxa de 9,86% ao ano e o Bradesco praticou média de 9,34%. O Itaú Unibanco foi o mais barato do mercado, com 8,66%.

Financiamento imobiliário com taxas de mercado

Banco

Juro médio* (ao ano)

Itaú Unibanco

8,66%

Banco Inter

9,00%

Bradesco

9,34%

Santander

9,38%

Banestes

9,54%

Banco do Brasil

9,86%

Banrisul

10,73%

Poupex

11,41%

Caixa Econômica Federal

11,54%

*Novembro de 2018

Fonte: Banco Central

A mesma situação – com a Caixa na liderança do juro mais caro – foi vista nos anos anteriores e, conforme a série histórica do BC, a Caixa é a mais cara pelo menos desde 2015, ainda no governo Dilma Rousseff.

Nas operações para baixa renda e juros regulados, ocorre exatamente o contrário: a Caixa é o banco mais barato. Em novembro de 2018, a instituição federal cobrou juro médio de 7% ao ano, o mais baixo entre as 12 casas que atuam no segmento. Nessa operação, o BB praticou juro de 7,79%, o Bradesco cobrou 8,86% e o Itaú teve média de 9,36% – a mais alta no ranking do mês.

Financiamento imobiliário com taxas reguladas

Banco

Juro médio* (ao ano)

Caixa Econômica Federal

7,00%

Banco do Brasil

7,79%

Banco de Brasília

7,99%

Banco do Estado de Sergipe

8,41%

Banestes

8,62%

Bancoob

8,80%

Bradesco

8,86%

Santander

8,94%

Banrisul

9,03%

Banco Inter

9,28%

Poupex

9,33%

Itaú Unibanco

9,36%

*Novembro de 2018

Fonte: Banco Central

Preocupação – Apesar de a fala do presidente da Caixa de que os juros para a classe média serão maiores no crédito imobiliário ser favorável aos bancos privados, cuja concorrência no segmento está aquecida, uma possível volta do banco público já preocupa os players do setor. Isso porque a despeito da polêmica em torno do patamar da taxa cobrada pela instituição pública, o anúncio, também feito ontem por Guimarães, de que a Caixa vai vender até R$ 100 bilhões em ativos por meio de instrumentos de securitização para expandir sua carteira pode trazer o banco de volta para o jogo.

O presidente da Caixa perdeu a oportunidade de destacar o que é mais relevante: a venda de ativos. Todos os bancos estão bastante competitivos. Se a Caixa subir a taxa, vai sair do mercado. Mas liberar balanço para investir é uma mensagem muito mais positiva. Abriria espaço para emprestar mais e permitiria ao banco voltar ao mercado sem intermitência e preocupação de funding“, avalia um executivo do setor.

Para o setor, ainda pesa o fato de a Caixa ser conhecida como o “banco da habitação” e estar associada ao menor juro de mercado. A influência dessa imagem diminuiu, relatam executivos do segmento, mas ainda há resquício que garante vantagem ao banco público. Tanto é que, entre os concorrentes, há até mesmo torcida para que a instituição demore a vender ativos de crédito imobiliário que permitam a ela emprestar mais nesta área.

Em outubro do ano passado, a Caixa chegou a fazer uma tentativa de voltar a ser mais agressiva no segmento, mas, conforme fontes ouvidas pelo Broadcast, não teve muito efeito no mercado, uma vez que os bancos privados vêm praticando juros menores. Líder no mercado de habitação, o banco público detém uma carteira de R$ 440,5 bilhões, conforme dados até setembro de 2018. Desse total, R$ 258,5 bilhões foram emprestados com recursos FGTS e R$ 182,0 bilhões com dinheiro oriundo da Caixa/SBPE. Esse montante garante ao banco 69,5% de participação no mercado de crédito imobiliário.

Procurada, a Caixa não teceu mais comentários sobre o assunto.

(Aline Bronzati e Fernando Nakagawa – aline.bronzati@estadao.com e fernando.nakagawa@estadao.com)

Fique por dentro do Mercado Imobiliário! Receba conteúdos gratuitamente.

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.

Fale o que você pensa

O seu endereço de e-mail não será publicado.