Empresas e setores – Construtoras crescem, mas com desequilíbrio entre baixo e alto padrão

São Paulo, 20/07/2017 – O mercado imobiliário deu sinais de recuperação na primeira metade de 2017, com avanço dos lançamentos e das vendas de imóveis pelas principais construtoras do País. O avanço, porém, ainda é marcado por um desequilíbrio. Enquanto os negócios seguem aquecidos no setor popular, com empreendimentos dentro do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), o setor de médio e alto padrão ainda enfrenta barreiras e encolhe.

Levantamento realizado pelo Broadcast a partir dos relatórios operacionais de oito empresas listadas na Bolsa (Cyrela, Even, Eztec, Gafisa, Rodobens, MRV, Direcional e Tenda) mostra que os lançamentos totalizaram R$ 5,14 bilhões no primeiro semestre, 10% mais do que no mesmo período do ano passado. Já as vendas líquidas atingiram R$ 5,19 bilhões, um aumento de 16%.

Os dados não consideram outras empresas como Tecnisa, Rossi e PDG Realty, que só divulgarão seus números nas próximas semanas, junto do balanço financeiro.

O avanço no semestre foi encabeçado por MRV, Tenda e Direcional, cujos projetos estão enquadrados no MCMV. Juntos, os lançamentos destas três companhias no semestre alcançaram R$ 3,70 bilhões, alta de 22% na comparação anual, além de responder por 72% dos lançamentos deste grupo de companhias listadas. Do mesmo modo, as vendas do trio atingiram R$ 3,33 bilhões, alta de 22% e equivalente a 64% dos negócios do grupo.

O copresidente da MRV Engenharia, Eduardo Fischer, explica que o ramo de imóveis populares (negociados abaixo de R$ 300 mil) tem um mercado consistente. “A demanda por imóveis é forte e o funding, equilibrado. Temos banco de terrenos e novos produtos em oferta. Então, a consequência é seguir em crescimento. A operação está funcionando bem”, avaliou.

Em parte, a bonança do setor se deve à atualização das regras do MCMV neste ano, que ampliou de R$ 6,5 mil para R$ 9 mil o limite da renda dos consumidores que podem adquirir uma moradia enquadrada no programa, permitindo o acesso de um público maior. Outro fator positivo é a oferta de financiamento com taxas reduzidas, graças a recursos provenientes do FGTS. Aqui, a taxa gira em torno de 7% a 8% ao ano. Já o crédito para a compra de moradias com preços mais altos tem taxas em torno de 10% ao ano.

Segundo Fischer, o fundo ainda tem recursos necessários para financiar a habitação, mesmo após a liberação de saques das contas inativas, que passaram de R$ 40 bilhões, superando as previsões do governo federal. “O FGTS foi drenado. Mas, para o atual tamanho do mercado imobiliário, ele tem sido suficiente. O que não pode acontecer é continuação da drenagem”, ressaltou o copresidente da MRV.

Médio e alto padrão

Já do lado das construtoras que atuam no médio e alto padrão, o cenário é distinto. Os lançamentos consolidados de Cyrela, Even, Eztec, Gafisa e Rodobens foram de R$ 1,44 bilhão no primeiro semestre, retração de 13% ante o mesmo período do ano passado, correspondendo a apenas 28% dos novos projetos do grupo de companhias listadas na bolsa. Por sua vez, as vendas totalizaram R$ 1,85 bilhão, alta de 7%.

Ao contrário do setor popular, aqui os negócios estão pressionados por um conjunto de condições desfavoráveis. “A perspectiva permanece desafiadora, numa combinação de baixa oferta de crédito barato, queda nos preços de imóveis e volume elevado de estoques”, afirma o analista Gustavo Cambaúva, que assina relatório do banco BTG Pactual.

Do grupo acima, Rodobens e Gafisa não lançaram nenhum projeto em todo o semestre, priorizando a venda de unidades no estoque, especialmente de prontas. Por sua vez, a Eztec lançou só um projeto em abril e destacou que as vendas foram sensivelmente impactadas pela turbulência política.

“A recuperação vinha ocorrendo de forma linear desde o fim de 2016 e durou até maio (quando houve a delação da cúpula da JBS contra o presidente Michel Temer). Depois disso, a recuperação continuou, mas sem o mesmo ímpeto”, comenta o diretor de Relações com Investidores da Eztec, Emílio Fugazza.

O executivo diz, entretanto, que espera recuperação do setor no segundo semestre. A Eztec já prepara o lançamento de mais dois projetos em São Paulo, situados na Liberdade e no Butantã, com VGV total de R$ 139,5 milhões. O foco são regiões com uma demanda orgânica, segundo Fugazza. “Percebemos que há uma recuperação tímida do mercado, mas ela está ocorrendo”, frisou.

Já o presidente da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), Luiz Antônio França, também vê chances de uma recuperação continuada do setor de média-alta renda, mas pondera que a volta de um crescimento mais firme ainda é incerta. “Os lançamentos tendem a ocorrer em locais e nichos onde existem oportunidades pontuais. Para haver uma recuperação maior, há a necessidade, primeiro, de venda dos estoques”, disse.

Além disso, França aponta a necessidade de estabilização do cenário econômico e político, com volta da criação de empregos e aumento na confiança dos consumidores, de modo a garantir maior liquidez nas vendas. “A inflexão do setor ainda vai depender diretamente de como estiver o ambiente político e econômico no segundo semestre.”

(Circe Bonatelli – circe.bonatelli@estadao.com)

Fonte: Broadcast
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