Gafisa tem futuro incerto após acionista pedir diluição do conselho

Gafisa tem futuro incerto após acionista pedir diluição do conselho

São Paulo, 06/08/2018 – Não bastassem as dúvidas sobre o andamento da economia brasileira e do mercado imobiliário, o futuro da Gafisa ganhou contornos ainda mais incertos depois que seu maior acionista – a gestora de investimentos GWI Group, do coreano Mu Hak You, donos de 25,7% das ações – pediu convocação de uma assembleia para destituição do conselho de administração da incorporadora e eleição de novos nomes.

O movimento pegou o mercado de surpresa, pois o conselho atual da incorporadora tomou posse há pouco mais de três meses, no dia 27 de abril, com mandato de dois anos. A GWI tem dois representantes entre o total de seis membros e, segundo fontes, deseja agora ampliar sua participação no grupo para dar as cartas na gestão. Nos seus planos estão mudanças na política de remuneração dos executivos e, possivelmente, troca do comando. Procurada, a GWI não respondeu ao pedido de entrevista. Já a Gafisa está em período de silêncio porque divulgará seu balanço do segundo trimestre da quinta-feira, dia 9.

 

A iniciativa demonstrou uma clara insatisfação do acionista com a gestão da Gafisa e foi considerada agressiva pelos executivos da empresa, conformou apurou o Broadcast com fontes do mercado. A requisição foi feita em 31 de julho e tornada público pela companhia na noite de 2 de agosto. Antes de prosseguir com a convocação da assembleia, a incorporadora cobrou o acionista que fundamente o motivo para a destituição e aponte os indicados para compor o novo conselho, conforme determina a Lei das SA (6.404/76). O requerimento, entretanto, é só uma formalidade e não deverá impedir que a assembleia seja realizada nas próximas semanas.

 

Complicada

O ponto mais sensível da Gafisa é o seu nível alto de alavancagem (relação entre dívida e patrimônio líquido), que estava em 83,1% no fim de março, um dos mais altos entre as empresas do setor listadas na bolsa. Em fevereiro, a Gafisa conclui um aumento de capital de R$ 250,8 milhões, reduzindo a alavancagem que estava em 126,1%. Mas, segundo analistas, a injeção de recursos ainda não foi insuficiente para levar o nível de endividamento a um patamar equilibrado. Para piorar, a empresa tem mostrado dificuldade em gerar caixa, devido à dificuldade para vender imóveis prontos no seu estoque.

 

Para virar o jogo, a direção colocou em prática no último ano um plano focado nos esforços para venda de ativos visando à redução da dívida, maior seletividade em novos projetos e buscas por eficiência operacional e administrativa. Entre abril e junho, a empresa conseguiu ampliar os lançamentos e as vendas. “Para qualquer mudança que se implemente na Gafisa, o resultado só virá em um tempo longo. O setor de construção não permite saltos quânticos em um espaço curto”, comentou uma fonte.

 

Por sua vez, a GWI tem pressa. A gestora de recursos é adepta de apostas arriscadas com retorno no curto prazo, e a própria Gafisa é um exemplo disso. Sua participação na incorporadora saiu de menos de 5% em outubro de 2017 para o pico de 30%, em janeiro de 2018, chegando atualmente aos 25,7%. Nesse período, o valor da ação caiu 19%.

 

Além disso, o investimento foi feito na contramão das recomendações de analistas do setor de construção civil. Quatro de cinco bancos que monitoram a Gafisa (Bradesco BBI, Credit Suisse, Itaú BBA e Santander) recomendam a venda das ações da companhia, considerando que a melhora nos resultados não virá antes do médio a longo prazos. “Investir na Gafisa exige fôlego para carregar essa posição até o aguardado retorno”, ponderou um analista, que falou reservadamente.

 

Outra aposta arriscada da empresa de Mu Hak You foi a Marfrig, que lhe causou um grande tombo, em 2011, quando as ações despencaram. Na ocasião, a GWI estava fortemente posicionada em operações no mercado a termo, alavancadas em ações do frigorífico. Nessas operações, o investidor se compromete a comprar uma ação no futuro por um preço predeterminado. Se o papel valorizar, ele ganha dinheiro. Se cair, ele perde.

 

E no papel de acionista ‘ativista’, a última polêmica de Mu Hak You envolveu uma briga com família controladora da livraria Saraiva, onde foi acusado de manipular as ações e de invadir a sede da empresa em busca de informações confidenciais. (Circe Bonatellicirce.bonatelli@estadao.com)

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