Incorporadoras sofrem novo prejuízo no primeiro trimestre e apontam recuperação lenta no mercado

Incorporadoras sofrem novo prejuízo no primeiro trimestre e apontam recuperação lenta no mercado

São Paulo, 15/05/2018 – As incorporadoras listadas na bolsa tiveram mais um trimestre no vermelho, afetadas por distratos, concessão de descontos, queda nas receitas e menor diluição de custos, empurrando para 2019 as expectativas de retorno do lucro. A recuperação do mercado imobiliário tem sido mais lenta do que a prevista por analistas e empresários do setor. A avaliação é de que, apesar da melhora geral da economia brasileira, as vendas de imóveis ainda não deslancharam devido ao desemprego alto e às incertezas sobre os rumos do País.

 

As dez maiores incorporadoras listadas na bolsa (Cyrela, Direcional, Even, Eztec, Gafisa, MRV, Rodobens, Rossi, Tecnisa e Tenda) apresentaram prejuízo líquido conjunto de R$ 147 milhões entre janeiro e março. A perda foi 42% menor do que nos mesmos meses do ano passado, quando os distratos e os descontos estavam mais intensos, porém os balanços ainda não estão próximos de uma inflexão. Já a receita consolidada caiu 1%, para R$ 3,048 bilhões, com menos lançamentos e vendas.

O resultado ruim se concentrou nas companhias que atuam no mercado voltado para consumidores de média e alta renda, onde as vendas são mais lentas. Essas incorporadoras (Cyrela, Even, Eztec, Gafisa, Rodobens, Rossi e Tecnisa) tiveram prejuízo de R$ 335 milhões (baixa de 12% na comparação anual) e receita de R$ 1,261 bilhão (contração de 18,5%).

“A recuperação operacional esperada vai ser mais gradual do que esperávamos inicialmente”, afirmou o analista de construção civil do Itaú BBA, Enrico Trota, em entrevista. Ele apontou que uma das principais dificuldades no setor de média e alta renda é a comercialização de imóveis prontos no estoque. Nesses casos, o consumidor precisa pagar, no ato, uma entrada de 20% a 30% do valor do apartamento. Já para os imóveis na planta, o consumidor pode desembolsar essa entrada ao longo das obras, que geralmente levam de 18 a 36 meses. “Estoque pronto é difícil de se vender. Para deslanchar, é preciso cair o desemprego, voltar o crescimento da renda e da formação da poupança. É isso que permite ao consumidor dar a entrada na compra”, complementou Trotta.

O copresidente da Cyrela, Raphael Horn, disse ver que a demanda por imóveis está mostrando alguns sinais de recuperação, ainda que a passos vagarosos. “Nossa impressão é que a demanda está melhor e tem mais procura por imóveis, após três anos difíceis. É uma melhora gradual e lenta”, afirmou, em reunião com investidores. Apesar disso, reclamou que as taxas do financiamento imobiliário não caíram tanto quanto poderiam em meio ao ciclo de redução da Selic. Atualmente, as taxas estão na casa de 9% ao ano ante 10% ao ano em 2017. “A competição bancária é muito limitada, o que faz com que os juros não caiam mais”, criticou Horn.

Na mesma linha, o diretor Financeiro e de Relações com Investidores da Rossi Residencial, Fernando Cunha, comentou que a recuperação da economia brasileira tem sido incapaz de afetar de forma relevante os índices de emprego e renda, que são fundamentais para sustentar a comercialização de imóveis. Ainda assim, a empresa vê o mercado um pouco melhor e cogita retomar os lançamentos, após passar em branco durante os anos de crise. “Alguns projetos deverão ser lançados no segundo semestre, porém, apenas à medida em que a dinâmica do mercado nos permita uma gestão eficiente dos riscos”, ponderou.

Apesar da recuperação lenta, a Eztec tem notado a volta gradual dos investidores para o mercado. Com a queda da Selic e a menor rentabilidade de muitas aplicações, o apetite pelos ativos patrimoniais aumentou. “Como estamos numa época em que os preços dos imóveis pararam de cair e entraram numa inflexão, o investidor chegou à conclusão que deve se posicionar agora no mercado”, avaliou o diretor Financeiro e de Relações com Investidores da Eztec, Emílio Fugazza, em entrevista.

Destoando dos concorrentes, a Even apresentou uma visão um pouco mais otimista do mercado. Para o presidente da incorporadora, Dany Muszkat, o mercado passou, sim, por uma inflexão e já tem mostrado sinais de recuperação, com espaço para comercializar unidades a preços maiores. Exemplo disso é que a companhia decidiu aposentar a tradicional campanha “Even Day”, feirão em que negocia estoques a preços promocionais.

“Não tivemos Even Day neste ano e não vamos mais ter. Nossas campanhas de vendas serão voltadas a conseguir alguma coisa a mais em termos de preços”, frisou Muszkat. “Temos sentido os estandes mais cheios, com a percepção dos compradores de que o momento é bom para aquisição da casa própria”. Segundo o executivo, as vendas de estoques neste ano têm contado com preços nominais de 1% a 4% maiores. “Os resultados estão bastante satisfatórios”, salientou.

Rentáveis – Assim como nos trimestres anteriores, apenas MRV e Tenda mostraram lucro crescente. As companhias atuam no mercado para consumidores de baixa renda, dentro do Minha Casa Minha Vida (MCMV). O setor tem financiamento barato e demanda consistente, pois atende consumidores que ainda buscam o primeiro imóvel. A MRV viu o lucro crescer 22%, para R$ 160,0 milhões. Já a Tenda dobrou o lucro, para R$ 36,3 milhões. Ambas estão ampliando os lançamentos, o que lhes permite ganhos de escala e melhora das margens, com tendência de um retorno maior dos seus investimentos.

“As visitas nos estandes de vendas têm aumentado desde o ano passado. E encurtou o prazo para a tomada da decisão de compra. São sinais positivos”, apontou o copresidente da MRV, Eduardo Fischer, que reiterou a meta de lançar 50 mil apartamentos neste ano. “Vamos aumentar a penetração nos mercados onde já estamos presentes. A diluição de despesas gerais e administrativas continuará acontecendo”, acrescentou, referindo-se à expectativa de incremento do retorno sobre o patrimônio investido (ROE, na sigla em inglês). (Circe Bonatelli – circe.bonatelli@estadao.com)

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