Gafisa

Nosso compromisso com a Gafisa é de longo prazo, diz nova presidente da empresa

São Paulo, 14/12/2018 – A nova gestão da Gafisa tem plano de gerar valor para a incorporadora e seus acionistas no longo prazo, salientou a nova presidente, Ana Recart, em entrevista ao Broadcast.

A executiva assumiu o posto em outubro por indicação da principal acionista, a gestora de recursos GWI Group, do investidor Mu Hak You, dono de uma fatia de 48,7% na incorporadora.

A GWI destituiu o conselho de administração e a direção, ocupando esses postos com pessoas de confiança de Mu Hak, como seu filho e antigos funcionários. Recart era presidente da GWI Real Estate, braço da gestora destinado a investimentos imobiliários, da qual ela se desligou para assumir o comando da Gafisa.

Em seguida, deu início a um plano de reestruturação na Gafisa baseado em profundos cortes de custos, o que envolveu demissão de cerca de metade dos funcionários, fechamento do escritório no Rio, postergação de lançamentos, revisão de contratos e suspensão de pagamento a fornecedores, conforme já antecipado pelo Broadcast.

“Com a companhia mais enxuta, também estaremos prontos para crescer”, explicou Recart. “Acho que poderemos ampliar os lançamentos no ano que vem. Estamos trabalhando para isso”, disse.

Nos dois anos anteriores, a companhia já havia passado por uma reestruturação, com aporte de capital e enxugamento dos negócios. Mas ao contrário de outras incorporadoras que já voltaram a crescer, a Gafisa permaneceu com um estoque de imóveis e endividamento elevados. A sua relação entre dívida líquida e patrimônio chegou a 87,8% no fim do terceiro trimestre, um dos mais altos do setor. No caixa, sobraram apenas R$ 194 milhões.

Apesar de tudo isso, a nova presidente ressaltou que está otimista. Na sua avaliação, a empresa é viável e tem ativos suficientes para cobrir seus compromissos financeiros, sem necessidade de renegociar dívidas ou passar por nova injeção de recursos. Veja a seguir a entrevista, concedida na sede da companhia, em São Paulo:

Broadcast: Desde que assumiu a Gafisa, a nova gestão anunciou uma reestruturação da companhia, baseada em forte redução dos custos. Isso foi colocado em prática depois de a gestão anterior já ter feito uma revisão dos negócios, com foco na venda de estoques, diminuição de novos projetos e aporte de capital. A empresa é viável?

Ana Recart: Sim. A Gafisa tem R$ 3,4 bilhões em ativos. Desse montante, são R$ 1,4 bilhão em recebíveis (pela venda de imóveis), R$ 1,3 bilhão de estoques, R$ 500 milhões de banco de terrenos e R$ 200 milhões em caixa. Tudo isso versus uma dívida de R$ 960 milhões. Para fazer frente a essa dívida e para que a companhia volte a crescer, nossa primeira medida foi um turnaround (reestruturação dos negócios). Começamos pela readequação do tamanho da empresa. A companhia tinha 740 funcionários, mas não precisa de tudo isso. Passamos para cerca de 370.

Broadcast: Com essa redução, o tamanho da empresa já está adequado?

Ana Recart: A primeira onda (de demissões) já terminou e agora estamos revendo contratos. Preciso desse fornecedor? Se não preciso, vamos rescindir com ele. E se preciso, vamos analisar se ele é o melhor fornecedor na área e tem o melhor custo-benefício. Se, ao terminar essa segunda onda de redução de custos, acharmos que ainda é preciso trocar, demitir ou contratar pessoas, vamos fazer. Então, não consigo afirmar, hoje, se esse número de funcionários é o correto. Vamos analisar.

Broadcast: Por que a Gafisa fechou o escritório no Rio?

Ana Recart: Porque nosso foco está em São Paulo. Entregamos a última obra no Rio em outubro e não temos mais canteiros abertos na cidade. Entendemos que o Rio está passando por dificuldades. Outros players estão sofrendo nessa região. Então, vamos focar em São Paulo, com os produtos das linhas Moov (residenciais de médio padrão) e Line (alto padrão)

Broadcast: Quando vocês vão terminar a revisão dos contratos com fornecedores?

Ana Recart: Quero terminar isso o quanto antes. Acredito que em dezembro e janeiro ainda estaremos analisando os contratos. É muita coisa.

Broadcast: É por isso que há fornecedores sem pagamento?

Ana Recart: Estamos negociando com eles.

Broadcast: Mas estão sem pagamento enquanto isso?

Ana Recart: Estamos negociando.

Broadcast: A reestruturação da Gafisa influenciou o andamento das obras? Há canteiros com atrasos?

Ana Recart: Temos hoje 18 canteiros ativos, com todas as obras funcionando, sem atraso no nosso cronograma.

Broadcast: Ao contrário do proposto inicialmente, vocês desistiram de mudar a sede do Edifício Eldorado Business Tower, de alto padrão, na Marginal Pinheiros, para um prédio comercial próprio em São Caetano. Por quê?

Ana Recart: A Gafisa gasta R$ 5 milhões por ano na locação deste edifício. Em princípio, a proposta era mudar para o imóvel próprio em São Caetano. Mas em seguida reduzimos o número de funcionários. Como temos isso melhor dimensionado e por outras questões operacionais, não vamos mais para São Caetano. Vamos ficar em São Paulo, mas em outro prédio. Já comunicamos que iremos sair deste. Ainda não tem data para a saída. Estamos pesquisando o prédio que atenda melhor a empresa e os funcionários. Uma possibilidade é o Cenesp (Centro Empresarial de São Paulo, na zona sul).

Broadcast: Qual a previsão para novos empreendimentos?

Ana Recart: Fizemos dois lançamentos neste semestre. Vamos continuar lançando, mas estamos revendo a viabilidade de todos os projetos. E também o momento mais adequado para o lançamento. Nessa revisão, decidimos postergar alguns projetos até encontrarmos um melhor timing entre demanda e oferta. Esse entendimento também veio em função do benchmark com outras incorporadoras. Se tem dúvida sobre o melhor momento, não lance. Espere. Tenha certeza do seu produto.

Broadcast: Como foi esse encontro para benchmark com outras incorporadoras?

Ana Recart: Foram muito receptivos. Falamos sobre nosso turnaround. E todos eles já fizeram isso também. Então, eles veem que isso realmente tinha que ser feito. E também nos deram dicas. Menos de compra e venda de terrenos (risos).

Broadcast: Com quem vocês se reuniram?

Ana Recart: Conversamos com Cyrela, Eztec, Tecnisa, Setin, Even… Foi uma conversa de CEOs. Foram muito receptivos para troca de ideias e para conhecer nosso plano em relação à Gafisa. E somos humildes o suficiente para saber que eles têm mais bagagem do que nós. Por que não falar com que já está atuando no setor?

Broadcast: Com que visão para 2019 você saiu desses encontros? Será um ano com mais lançamentos da Gafisa?

Ana Recart: Acho que sim. Estamos trabalhando para isso. O crescimento será mais a partir do segundo semestre, mas teremos lançamentos no primeiro semestre também.

Broadcast: A Gafisa tem terrenos suficientes para os lançamentos no ano que vem?

Ana Recart: Em parte, sim. Os terrenos atendem mais da metade dos projetos previstos.

Broadcast: Um dos pontos mais polêmicos da reestruturação da Gafisa foi a abertura de um programa de recompra de ações apesar de a companhia ter pouco dinheiro em caixa. Dois conselheiros independentes renunciaram ao posto, sendo contrários a isso. Qual a lógica da recompra nesse momento?

Ana Recart: É totalmente condizente com o nosso plano. Entendemos que o preço da ação estava baixo e, executando o plano, há espaço para upside. O programa mostra que confiamos na empresa, que ela tem comando. E isso vai se reverter em um aumento da ação, como já tem acontecido. Acreditamos no plano e no potencial de valorização da companhia. Se não acreditássemos na companhia, não iríamos comprar ação.

Broadcast: E como planejam equilibrar a alavancagem com esse consumo de caixa extra?

Ana Recart: Temos cinco terrenos no Rio e avaliamos possibilidade de venda. Mas não vamos vender a um preço que não seja bom para a companhia. O mercado imobiliário está voltando. Também temos um estoque de apartamentos muito bom, concentrado em São Paulo, onde o mercado está melhor. Temos condições de honrar as nossas obrigações. Temos ativos, vamos enxugar, vamos lançar e teremos novas receitas. É tudo uma questão de montar o fluxo. É viável.

Broadcast: Vocês vão oferecer descontos ou condições especiais para dar mais liquidez ao estoque?

Ana Recart: Nosso estoque é muito bom, então não vamos queimar. Ainda mais nesse momento de retomada econômica, com muitas pessoas falando, inclusive, que os preços vão aumentar em São Paulo. Queremos vender, mas a uma margem que garanta retorno para a companhia, ainda que tenhamos que esperar. A prioridade é retorno, não vender por vender.

Broadcast: E quais são as novas receitas que você mencionou?

Ana Recart: Listamos alguns imóveis comerciais, como no Rio de Janeiro, que podemos alugar, a um cap rate de 8%. Conseguimos gerar receita e fluxo para o empreendimento. E depois poderemos vender esses imóveis para um investidor. Outra fonte de receita é o braço de serviços, que oferecerá aos compradores de imóveis opções customizadas de acabamento. Ele não precisa mais esperar a entrada das chaves para realizar esse serviço.

Broadcast: A estrutura de capital está adequada ou você vê a necessidade de novos aportes dos acionistas?

Ana Recart: Aporte adicional agora não. O último foi feito há menos de um ano. E estamos confortáveis, também não há necessidade de renegociar dívidas. Por isso mesmo estamos reduzindo as despesas para fazer frentes às obrigações. Com a companhia mais enxuta, também estaremos prontos para crescer.

Broadcast: Vocês estão otimistas?

Ana Recart: Sim. Assim como o Seu Elie (Horn, fundador da Cyrela, que disse em entrevista recente ao Broadcast esperar um ‘boom’ do mercado imobiliário). Ele está super otimista.

Broadcast: Vocês terminaram agora um roadshow nos Estados Unidos. Como o investidor está vendo a Gafisa?

Ana Recart: Nossa meta é valorizar a empresa. Então fomos colocar a Gafisa na vitrine e explicar a eles nosso plano. A receptividade foi excelente, todos concordaram com o turnaround.

Broadcast: O roadshow nos Estados Unidos foi feito logo após o anúncio da deslistagem das ações da Bolsa de Nova York (Nyse). Por que essa decisão foi tomada?

Ana Recart: Essa foi uma medida totalmente condizente com o processo de turnaround. É muito custoso para a empresa estar no ADR Nível 3, o mais alto da Nyse. Isso foi feito na época em que a Equity International (do investidor Sam Zell) era acionista da companhia. O nível de negociações naquela época justificava isso, mas hoje não mais. O volume é muito pequeno. Então vamos para o nível 1, onde também estão MRV e Cyrela. Visamos reduzir custo. As ADRs continuam, mas em outro nível.

Broadcast: Vocês pensam em fechar o capital da Gafisa?

Ana Recart: Não.

Broadcast: Nem no longo prazo?

Ana Recart: Não vamos fechar capital, nem liquidar. Nosso compromisso é no longo prazo.

Broadcast: Qual o próximo passo da GWI, como principal acionista da Gafisa?

Ana Recart:  Como CEO da Gafisa, não posso falar em nome da GWI, nem sobre outros acionistas. Eu era CEO da GWI RealEstate. Não sou mais. Desde que entrei aqui, meu contrato lá foi rescindido. Não tenho nenhum relacionamento mais com a GWI. (Circe Bonatelli – circe.bonatelli@estadao.com)

Fique por dentro do Mercado Imobiliário! Receba conteúdos gratuitamente.

Cadastre-se para receber os nossos conteúdos por e-mail.

Email registrado com sucesso
Opa! E-mail inválido, verifique se o e-mail está correto.

Fale o que você pensa

O seu endereço de e-mail não será publicado.