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Setor de imóvel fracionado tem ‘boom’ de lançamentos e agora precisa desovar estoque

São Paulo, 02/07/2019 – O mercado de multipropriedade – aquele em que o imóvel é dividido entre vários donos, cada um com o direito de uso por um determinado tempo – deu um salto nos últimos anos, com o anúncio de dezenas de novos projetos no País. Mas é bom ficar alerta. Metade dos lançamentos ainda não foi vendido e agora engorda o estoque, levantando dúvidas sobre a sustentabilidade desse ritmo de crescimento daqui em diante.

Há cerca de sete anos, o Brasil não tinha empreendimentos no modelo de multipropriedade. Já em 2017 eram 54, em 2018 subiram para 80, e em 2019 chegaram a 92. Desse total, 50% estão prontos e 50% estão na planta ou em obras. Já o valor geral de vendas estimado das casas e apartamentos que compõe os 92 projetos é de R$ 22,3 bilhões, dos quais R$ 10,5 bilhões (48,5%) estão à espera de um comprador, conforme dados da consultoria Caio Calfat Real Estate.

 

“Esse é um mercado que chama atenção porque cresceu muito durante a maior crise da história brasileira, mesmo sendo um produto supérfluo, voltado para lazer”, observa o presidente da Associação para o Desenvolvimento Imobiliário e Turístico (Adit), Caio Calfat, que também preside a consultoria homônima. “Eu não diria que esse estoque é um encalhe, porque as vendas costumam levar cerca de dois anos para serem concluídas. Mas ele serve de alerta para investidores. É preciso evitar excesso de oferta. Algumas regiões ficaram saturadas”, pondera.

 

O modelo de multipropriedade se difundiu rapidamente como parte dos negócios imobiliários de complexos turísticos em cidades com águas termais, praias, montanhas, parques temáticos, entre outros atrativos. Os principais polos da atualidade são Caldas Novas-GO, com 19 empreendimentos, Gramado-RS (7), Natal-RN (6) e Olímpia-SP (5), mercados onde praticamente não cabem novos projetos, na visão de Calfat.

 

Atrativos – Na multipropriedade, o comprador adquire uma fração de casas ou apartamentos para passar algumas semanas de férias a cada ano. Outra opção é destinar esse bem para locação. A vantagem da fração está em não ter que se desembolsar valores altos na compra e na manutenção de um imóvel de lazer inteiro que só é usado durante alguns dias do ano. Outro ponto positivo é o acesso facilitado a residências de alto padrão, já decoradas e mobiliadas, algo que muitos compradores não teriam fôlego financeiro para comprar sozinhos. Por sua vez, uma fração com direito a duas semanas de uso por ano custa em torno de R$ 50 mil.

 

As vendas brutas de frações movimentaram R$ 3,46 bilhões em 2018, 175% mais do que em 2017, quando atingiram R$ 1,26 bilhão, de acordo com pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV). Diante do aquecimento das vendas, 65% das empresas atuantes no setor planejam lançar novos projetos nos próximos dois anos, enquanto 44% querem ampliar os complexos em operação. “É um tipo de negócio que está gerando um interesse elevado”, conta o coordenador do estudo, Jimmy Medeiros.

 

Outro ponto que vem ajudando o desenvolvimento do setor foi a promulgação da lei 13.777, no fim de 2018, tipificando as características do mercado de multipropriedade. “A lei trouxe segurança jurídica para os investidores. Ficou claro que a fração é um direito de propriedade como qualquer outro”, avalia o advogado Carlos Ferrari, sócio do escritório N,F&A. Entre outros pontos, a lei definiu que as frações são bens individuais, portanto podem ser vendidas, alienadas ou dadas em garantia sem a necessidade de consentimento dos outros donos do imóvel. Com isso, ficou mais fácil a liberação de crédito bancário para desenvolvimento dos projetos.

 

A WAM Brasil, dona de 17 empreendimentos, planeja lançar com parceiros novos projetos que devem movimentar R$ 3 bilhões nos próximos 12 a 18 meses. Os planos incluem ainda chegar a Punta del Leste e Orlando. “Tem muito potencial turístico e muito espaço para crescer”, afirma Ênio de Almeida, diretor da W/Palmerston, holding controladora da WAM. O executivo também classifica como “supernatural” o volume do estoque do País. “No mercado convencional, é comum a incorporadora vender 30% dos apartamentos na largada. Na multipropriedade, a venda é ‘formiguinha’. Ela acontece de acordo com o fluxo dos turistas na região”, explica.  (Circe Bonatelli)

 

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