A vida e o custo de morar em marcos arquitetônicos de São Paulo

São Paulo, 10/12/2017 – Morar em um marco arquitetônico de São Paulo pode custar entre R$ 240 mil, se a escolha for por uma quitinete de 30 m² no Copan, no centro, ou algo como de R$ 1,5 milhão para um apartamento de 140 m² no Edifício Bretagne, no bairro de Higienópolis.

Assinado por Oscar Niemeyer com colaboração de Carlos Lemos, o primeiro tem 1.160 unidades habitacionais de diferentes tamanhos, além da salas comerciais no térreo. A taxa condominial gira em torno de R$ 300 para apartamentos de até 50 m², valor considerado abaixo da média da área.

Já a cota mensal para um morador do icônico Bretagne, do construtor João Artacho Jurado, é de R$ 1.460,00. Embora tenham traços bastante distintos, ambos foram projetados no início dos anos 1950. A época ficou marcada pelo boom de lançamentos modernos, impulsionado pelo superávit da balança comercial no pós-guerra e pela introdução, no mercado local, da figura do incorporador.

O Copan e o Conjunto Nacional (R$ 12.921,00 o metro quadrado), na Avenida Paulista, foram os pioneiros no uso misto do espaço, agregando residências, comércio e serviços. É por isso que, ainda hoje, quem vive ali precisa se acostumar com o status de cidadão, não com o de morador, avalia o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP) Milton Braga. “Dificilmente esse indivíduo desce de calção ao térreo, por exemplo. Quando sai de casa, ele já está entre muitas pessoas, no centro da cidade.”

A relação orgânica com o entorno é um dos pontos mais bem avaliados. Felipe Fatah, de 34 anos, afirma ter escolhido o Copan por causa da localização, do fácil acesso ao transporte público e serviços e, sobretudo, pela “pluralidade”.

 

A vizinhança, segundo ele, é formada por jovens, famílias e idosos.

“Tem desde o estudante ao cara com uma carreira já consolidada. Além disso, morar em um prédio com fachada ativa facilita muito a vida porque tudo está a um passo.” O aluguel do imóvel de 160 m², cerca de R$ 5 mil, é dividido com três colegas.

O professor Braga também já viveu no Copan, em 2006. Hoje, mora com a família no Parque das Hortênsias, em Higienópolis, um dos edifícios de Artacho Jurado na região. A mudança, diz, deu-se porque o prédio se adequa às necessidades de quem tem filhos pequenos ao mesmo tempo que “não é autossuficiente nem nega a cidade.”

Essa, aliás, é uma característica das construções da época. De acordo com o professor Valter Caldana, do Mackenzie, esses empreendimentos são voltados para o passeio público, alguns nem portões têm, de maneira que a rua “entra” no privado e o privado “está” na rua. O edifício Louveira, projetado em 1946 por João Batista Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi, é um exemplar da tipologia.

Do lado de dentro, diz Caldana, os prédios apresentam uma planta mais acolhedora. Os ambientes são menos fragmentados e, por serem mais fluídos, facilitam a mobília. “Existe também um respeito muito grande pela questão ambiental. Com muitas janelas, eles têm iluminação e ventilação excelentes.”

Mercado – Denise Baretto passou a maior parte da sua vida no Edifício João Ramalho, de 1958, assinado por Plínio Croce, Roberto Aflalo e Salvador Candia. Mudou-se há 11 anos, para ficar mais próxima do trabalho. Atualmente, a propriedade é ocupada por um dos filhos.

“Nasci, cresci, casei e criei meus filhos ali. A planta é incrível. O edifício tem um pé direito alto, o que cria um espaço enorme no térreo, onde as crianças andavam de bicicleta.” A arquiteta não sabe exatamente em quanto ele está avaliado. “É que não tenho a menor pretensão de vendê-lo.”

Diretor da Axpe, imobiliária especializada em empreendimentos autorais e de alto padrão, José Eduardo Cazarin afirma que esse tipo de imóvel não costuma nem chegar ao mercado. “As unidades são escassas e o negócio é fechado no boca a boca, entre amigos.”

Para o empresário, a valorização se dá pela combinação da beleza estética com o valor histórico e a qualidade funcional da construção. “O morador sente que está vivendo em algo que não é apenas um apartamento, mas um bem artístico.” Ele lembra que a planta original do Edifício Prudência, de Rino Levi, já foi peça de uma exposição sobre o modernismo no Brasil. A construção localizada em Higienópolis, também é tombada.

É por isso que a procura é maior entre pessoas que trabalham no meio artístico. “São clientes que entendem e apreciem o valor estético das construções.” Cazarin conta já ter acompanhado a compra e a reforma de um apartamento no Prudência. “Os donos eram dois velhinhos que nunca tinham mexido na planta. A nova proprietária abriu mão de uma suíte porque a reforma alteraria o projeto original de Levi.”

Embora tenham um valor inquestionável, esses prédios podem não satisfazer clientes que “gostam de tudo novinho”, ressalta Cazarin. “Há alguns que internamente são contemporâneos, mas muito deles estão protegidos como patrimônio histórico, então reformas são limitadas.” Caldana aconselha verificar se as instalações elétricas e hidráulicas foram modernizadas. (Bianca Soares, especial para O Estado)

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